sábado, 3 de dezembro de 2011

Não te esqueças de mim


Penso sobre minhas condições e quero meus retratos jogados ao acaso por cima da cama, envelhecidos pelo tempo. Quero que o acaso se case com o pré-determinado. Que você lembre-se de mim, depois de uma vida inteira e com um sorriso no rosto. Que você continue sorrindo com minha ausência e minhas fotos guardadas no fundo do se armário. Guardadas junto com minhas cartas cheias de versos quebrados numa caixa de sapatos com o cheiro do perfume que eu usava na juventude, comprado com o restinho das suas
gorjetas ao piano naquele bar sujo.
Que você sinta saudades de mim. Mas que seja uma saudade daquelas que temos certeza que vamos nos encontrar com a pessoa em breve, e sorrimos resignados com a expectativa. Que não seja um adeus e sim um até breve. Que você lembre-se de mim sempre que comer chocolate. E que toda vez que alguma criança cair e machucar o joelho você dê boas risadas lembrando-se do dia em que aconteceu comigo e você fez o curativo, me chamando de desastrada.
Não te esqueças de mim que não me esquecerei de você. Não vou esquecer de como o formato dos seus olhos ficam quando você sorri, nem de como você sorri feito criança, sem abrir os olhos, logo após acordar. Nem de quantas vezes, mesmo depois de uma noite inteira de trabalho, você parou para me ouvir durante meu café da manhã e seu jantar. Não te esqueças de mim que não me esquecerei de como seus dedos de pianista brincavam em minha barriga, tocando um Für Elise imaginário, com a música dentro de minha cabeça. Não te esqueças de mim que não me esquecerei de você.

Aline Guimarães

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